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Contos meus
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Olá. Eu sou um blog de contos e preciso de um projeto gráfico. Preciso de outros blogs amigos tb... Can you help me? =P
Sábado, Agosto 23, 2008 =P postado por: IGOR DIAS 12:07 AM Comments:Sexta-feira, Abril 04, 2008 uh! postado por: IGOR DIAS 6:56 PM Comments:Quinta-feira, Fevereiro 14, 2008 Contos e outros que-tais, agora lá: http://kelloon.blogspot.com o/ Sábado, Janeiro 19, 2008 Hoje é domingo. O calendário marca sábado, mas mente sem saber. Hoje é domingo. Hoje chove, como nos domingos de verão. Hoje paira aquele ar esquisito, tão domingo, aquele ar de após, aquela ressaca moribunda, aquela vontade de não existir, de não ser, de não estar. É um daqueles dias em que tudo é inevitavelmente enfadonho, fastidioso, aquele tédio amarguinho que nem Trident mascado com papel. As coisas não pesam, mas existem. E a existência das coisas perturba os olhos, os ouvidos, os sentidos, esses mesmos sentidos que não se preocupam, que não querem se dar ao trabalho, que estavam felizes em seu sono fundo no colchão novíssimo, ainda sem a forma do corpo que virá paulatina, certeira. Um cansaço de alguma coisa que talvez um mata-sono cure ou uma barra de chocolate ou um café forte ou qualquer coisa com canela, mas é domingo e esse cansaço que não cessa, que se espraia até um sofá colorido em que se possa dormir até a hora em que se queira; mas o sono, esse sono tão gostoso (que podia ser ainda um livro, um jogo, uma toalha vermelha de piquenique) é arrancado com força, uma, duas vezes. E aí o domingo, com seus olhos quadrados, é um dia que se lhe extirpam, como um câncer ou um pâncreas, e resta esse vácuo, essa coisa assim, vazia, que a chuva lava, mas não leva. postado por: IGOR DIAS 7:45 PM Comments:Sábado, Dezembro 08, 2007 Olhou com algum descaso para a berinjela feia, e esta lhe retornou um olhar audaz, desafiador, de dentro do prato com arroz e feijão, incomensuravelmente desinteressante mas altiva. A fome lhe apertava o estômago, mas não havia vinho, paisagem verde, decoraçõezinhas de elefantes indianos, antepassados pendurados tortos na parede verde-clara que lhe fizessem esquecer que a berinjela o esperava em cima da mesa. O prato era desses cor-de-âmbar, duralex, desses sem qualquer apelo visual ou emocional, listrinhas coloridas nas bordas, criancinhas bonitinhas brincando de carrinho ou de boneca na superfície côncava, nada; apenas a superfície crua cor-de-âmbar que deixava transparecer do fundo os vestígios de uma cola de etiqueta de preço que insistia em não sair, apesar dos esforços vertiginosos e paulatinos dos mais variados detergentes todos os dias aplicados em cada um dos doze pratos do jogo. A mesa forrada xadrez, a toalha disposta em diagonal deixando entrever as quinas carcomidas de compensado e as quatro pontas da toalha prontas a incomodar o colo de quem quer que se sentasse para comer, sempre sujas com alguma espécie de molho, de macarrão, de carne, frango-cerveja-feijão-kissuco, sempre tão intempestivamente gordurosas e plásticas, as pontas. A mesa parecia uma dessas mesas de pensões do Centro, na qual todos os dias se aglutinam os peões, office-boys, desempregados e toda essa horda de pessoas socioeconomicamente desfavorecidas que vão atrás dos almoços “serve-serve” fartos e baratos tocados pelos nordestinos arretados no background. Começou a comer com algum esforço porque o estômago já se retorcia e começou pelas beiradas, o arroz e o feijão já frios, mas ali. Abriu a boca e ela veio escorregando, a língua, lenta, saltando devagar por entre os dentes, toda esbranquiçada e grande. Tocou o feijão-com-arroz com a ponta da língua e não sentiu nada. Achou que tinha sido o café de há pouco, mas só soube alguns anos depois, quando uma sinapse imprevisível remeteu-o de volta ao presente momento no instante em que um amigo que havia acabado de chegar de uma viagem de negócios a Cingapura lhe contava que tinha lido numa enciclopédia que a ponta da língua só é apta a sentir o doce. Uma colher, duas colheres, três colheres. Comia rápido e voraz no grande aposento desocupado, herança de uma aristocracia já decadente, a fome e o asco travando batalhas incansáveis no cérebro, estômago, intestinos. O vovô o olhava torto da parede com seus vivos olhos azuis inquisidores, que-merda-meu-neto, e ele olhava de volta com um pedido de desculpas entalado na garganta junto com o feijão gelado, pedindo paciência e piedade e clemência e misericórdia, mas era melhor não conversar com o vovô agora, deixar a poeira baixar e a comida descer, na refeição difícil da casa suja. Comia o arroz e o feijão já com gosto porque era impressionante ver em si mesmo o demônio da fome arrefecer, sentir-se vencendo-o pouco a pouco, tapando com uma argamassa nutritiva o buraco da barriga que parecia infinito e longínquo, esse vazio quase existencial, oco como os elefantes da mesinha de centro de vidro e ele sabia porque já havia quebrado dois, um deles em cima da própria mesa, totalmente responsável pela rachadura no vidro que jamais apareceria, encoberta por um livro de enfermagem. A cada colher sentia-se mais forte, mais homem, mais cheio de vigor, mais foda-se a toalha plástica vou trabalhar e comprar outra, foda-se o vovô e os seus olhos estupidamente azuis, foda-se tudo o que me cerca e que me faz mal e me desatina e me desmorona e me cega e me frustra e me cala. Um arroz-com-feijão meio comida de mendigo, meio esmola, meio comida de geladeira de anteontem sem sabor, mas viva, voilà, comida, refeição. Mas a berinjela estava lá, ensopadinha, nojentinha, fazendo aquele montinho no cantinho. Foi comendo o arroz-com-feijão até o fim, até não poder mais evitá-la. A um dado momento, eram novamente só os dois, trocando aqueles olhares cheio de farpas, cheio de fagulhas. Já satisfeito, embora ainda ávido de quem acaba de sair da fome e faz questão de entulhar o bucho até o final, olha pra ela com uma risadinha sarcástica. Poderia simplesmente fugir, não comer, desperdiçar, jogar no lixo da cozinha, mas ops, foi sem querer; ele recolhe os restos no chão da comida derrubada enquanto a toalha ganha mais uma nódoa pra sua coleção, no diário exercício do auto-engano. postado por: IGOR DIAS 11:36 PM Comments:Quarta-feira, Novembro 14, 2007 Porque a garota caminhava fagueira e sem propósito com sua pasta azul e o seu casaco branco e talvez fosse até um dia de frio, desses frios que nos pegam de surpresa no verão, junto com a gripe e a chuva que não cessa. Impenetráveis fones que se movem com as orelhas pela rua num ritmo cadenciado, cadente, estrela-cadente. Os carros à direita, à esquerda, ostentando seus luxos cujas velocidades não permitem que se vejam. A avenida é larga, larguíssima. Vai pelo meio, pelo canteiro central da avenida de quatro pistas, com seus fones impenetráveis e seu casaco branco, a duas pistas de qualquer oásis em que não sinta o vento veloz do carros que vão e vêm, à direita, à esquerda. À direita, um rapaz moreno, empertigado, feições nobres, roupas sociais alinhadas e umas nesgas de rugas já iminentes. O rapaz tenta falar com ela, gesticula, mexe os lábios, alguma mensagem entrecortada, algum som que não lhe chega aos ouvidos, que se perde junto à música do fone. À esquerda, outro rapaz moreno de feições muito semelhantes, sandálias de couro, bermuda cargo, camisa de malha. Cabelos desgrenhados, livros embaixo do braço. Grita, gesticula, mostra os livros; tudo é longínquo ainda, não dá pra ver o que se mostra, não dá pra ouvir o que se fala. O sinal fecha. A garota, independentemente da direção que escolha, à direita ou à esquerda, sabe que encontrará um rapaz moreno do outro lado da rua, o engenheiro ou o filósofo; conversará com qualquer um deles, pois, aparentemente, ambos têm muita coisa para lhe falar. Rebeca, parada no canteiro central da Av. das Américas, agora compreende que o mundo não um ovo, é uma azeitona. Trilha a phaixa de pedestres; de qualquer forma, estará livre dos carros. postado por: IGOR DIAS 4:15 PM Comments:Domingo, Setembro 23, 2007 (...) através dos vidros da academia na qual homens e mulheres se mostravam como produtos em processo de suculência, frangos de padaria absolutos. Não entendia essa estética do corpo grande, dos músculos, essa truculência desnecessária quando o mundo precisava mesmo era de mais mãos e de mais cabeças, mas bom, se há oferta, é porque, em algum lugar deve haver demanda. A demanda estava lá mesmo, do lado de dentro, porque o sistema era auto-sustentável, as mulheres. As mulheres também não ficam para trás na estética da grandeza porque a bunda deve ser dura, ok, a bunda deve ser dura, mas os peitos não precisam ser siliconados e inchados, porque, sabem como é, os peitos têm que ter aquele tamanho ideal, devem caber numa taça de vinho (...) postado por: IGOR DIAS 8:15 PM Comments:Quinta-feira, Setembro 13, 2007 Todo relapso, anda pelo centro empresarial de sandálias, passos lentos e indecisos. Atravessa a rua correndo sem almoço e vai. Corre, pega o ônibus, os olhares invejosos das pessoas, mas foda-se. Senta-se ao lado de uma senhora, vê o mar. Desce. Quase não agüenta o peso de sua mochila, cheia de bugigangas, cheia de etcéteras dispensáveis e a roupa de businessman que levava como um trunfo e uma desonra, mas um peso sempre. A praia, ei-la. É terça-feira, o sol deslumbra, mas não cega, amacia, mas não queima. O céu é azul-quadrado. Estira-se. É só. É-com os livros e as músicas e o sol na cara, o mar de vez em quando. Os outros não entendem sua mochila gorda, o olham de soslaio, atravessados. Parece curtir, ainda que só. Parece bem consigo mesmo, com seus passatempos de quem não tem mesmo nada pra fazer numa terça à tarde, e se cansam de olhá-lo, de buscar razões ao estrangeiro. E se passam duas horas nisso, nesse falso tédio, nesse estado de contemplação quase perpétuo. As pessoas o vêem da calçada, mas não o olham e então é o orgasmo surdo, o refestelar-se inexpressivo, porque ele se mescla e se funde exatamente da forma que buscava, metodicamente esquematizado para que fosse o mais casual possível, relegando-se o privilégio da não-existência, o desejo mudo de ser paisagem. postado por: IGOR DIAS 5:18 PM Comments:Domingo, Agosto 05, 2007 Escutou o escuro. Nada soube. Trilhou os dedos sobre o corrimão verde-água. Era frio e precisava descer as escadas com cautela no silêncio cego. Verde-seca, sibilando os dedos por entre o corrimão, achou-se na escada sem visão. Desceu o primeiro degrau confiante de si, ainda que trêmula. Olhou para baixo observando o lance restante que ainda faltava, ainda sem ver. Agachou-se. Levantou-se e desceu mais um degrau. Limpou o suor que lhe fugia pela testa. Testou-se ferina, desceu dois degraus de uma só vez. O eco do silêncio reverberava. Cuspiu no chão, agachou-se com sede. Levantou-se. Desceu mais um degrau e pisou no cuspe. Agachou-se. Levantou-se e decidiu não mais agachar-se. Respondeu ao questionamento que se fazia naquela hora e desceu mais um degrau num questionamento escuro e vazio. Era uma mulher duvidosa, dubitável e dúbia, embora nunca fosse redundante. Prostrou-se ante ao corrimão verde-água e agachou-se mais uma vez. Concentrava suas energias na pélvis quando se agachava e era o que fazia quando tinha medo sempre. Reouve energias, levantou o espírito e recobrou as forças que moveriam seu corpo mole adiante, tomou um gole de cerveja. Deixou um gole da cerveja escura cair sobre a escada, curvou-se, desceu mais um degrau com susto e pisou na cerveja, o que a fez agachar-se mais uma vez, com medo do silêncio verde-mar. Nada soube. Trouxe à boca o que buscava, a cerveja lhe servia para os medos dos medos sempre, quando agachar-se não servia nunca. Desceu três degraus convicta e resoluta, sem deixar-se abater trêmula, a cerveja cai no chão com pressa e espatifa-se num som surdo e cego e verde e frio e ela se agacha e chora e não adianta porque é uma dor cega que a mulher ferina, indubitavelmente labiríntica, não pode suportar. E a escada escura é toda cuspe e lágrima e suor e cerveja e a mulher agachada e convulsa a um passo do fim. postado por: IGOR DIAS 9:31 PM Comments:Domingo, Julho 08, 2007 Tenho 10 anos. Há três meses atrás recebi meu diagnóstico de câncer no pulmão. Tentaram esconder de mim, mas meus pais por vezes esquecem o quanto uma criança pode ser esperta... Ninguém dizia pra mim o que eu tinha, mas consegui ouvir através da parede o meu pai conversando com o médico às 2:00h da manhã, enquanto ele, inocente, achava que eu dormia. Fui ficando pior a cada dia, embora sempre lúcido, apesar de umas febres reincidentes e das tosses que pareciam levar um pouco da minha alma a cada dia. Um dia me internaram. Diziam sempre que não era nada grave. Sempre traziam um gibi pra mim. Rasparam a minha cabeça dizendo que meu cabelo tava ficando grande demais e que cabelo grande é coisa de boiola. Eu sabia que estava fazendo quimioterapia porque eu tinha ficado igual aquela mulher da novela: careca e fantasmagoricamente desbotado. Um dia eu não acordei. Nesse dia, meus pais chegaram no quarto e me viram com lágrimas, porque eu tinha chorado antes de morrer. Foi muito triste porque é sempre triste quando se morre, inda mais quando se é criança. Colocaram um pôster do Cebolinha em cima do meu caixão branco. No genuflexório, meu pai não chorou, exceto quando não pôde vencer-se e acendeu um cigarro, encharcando-se com as lágrimas que tentava, em vão, enxugar com os dedos amarelentos. postado por: IGOR DIAS 5:49 PM Comments:Sábado, Junho 09, 2007 Arrefeceu-se do propósito enquanto descia a escada lenta, ajeitou os seios protuberantes na camiseta. Não tinha um centavo no bolso, mas saiu altiva do prédio de seis andares, ainda que arrefecida do propósito. Depois de muito andar por ruas repletas de ausências de elementos narrativos, encontrou um lustre na calçada. Velho, superado, maltratado, o pobre lustre. Lustrou-o. Fez-se na sala de estar, newtonianamente, a luz. Mostrou aos amigos e ao pai o luminoso lustre lustrado. Era, de fato, belo, o lustre, genuinamente belo. Contemplou o lustre de baixo, numa tarde chuvosa de maio. Olhou fundo numa de suas lâmpadas e descobriu uma pequenina microcâmera que se escondia com pudores sob o metal patinado. E qual não foi a sua surpresa e o seu desespero quando percebeu que as câmeras estavam em todas as lâmpadas, sempre em posições estratégicas, sempre tão conscienciosamente veladas... Arrefeceu-se do propósito enquanto descia a escada lenta, ajeitou os seios protuberantes na camiseta. Lembrou-se da última vez em que tinha se arrefecido do propósito, os bolsos vagos, as poesias das ruas esvaziadas numa severa falta de contexto. As câmeras, lembrava-se uma vez de ter imaginado a vida como uma grande peça, de cenários paradoxais e estapafúrdios, nos quais desenrolava-se a tragédia da vida humana, todos nós desesperadamente improvisados a cada cena porque não havia texto, as câmeras, agindo de forma natural e tomando sempre um gole de café a cada intervalo para que ainda nos mantivéssemos acesos e parecêssemos sempre naturais apesar da ansiedade indubitável de não saber a próxima fala, as câmeras. Mas a vida, agora ela sabia, estava mais para um campeonato de pôquer televisionado, as cartas na manga continuariam na manga, as armadilhas por toda parte, a possibilidade iminente do flagrante, total e inextinguível o clima pesado da vigilância, telescopicamente sem graça. Subiu as escadas, propositadamente determinada sem arrefecer e, liberta das correntes do pudor e do arremate, genuinamente bela, sorriu para o lustre lustrado. Newtonianamente, ajeitou os seios protuberantes com alguma satisfação e, improvisada e imprevisível, fez aquilo que jamais faria, aquilo que é decadente, que enoja, que dói as mãos, os olhos e os ouvidos, que tinha prometido aos onze anos jamais repetir. postado por: IGOR DIAS 12:11 AM Comments:Domingo, Junho 03, 2007 Esperou pelo sino que não ouviu, a marca d¿água sob o documento. Trancou-se, refugiou-se. Esperou crítica os policiais que não vieram. Dirigiu-se ao altar e tirou a roupa. Leu pela primeira vez, um milagre. Torturou-se. Esqueceu-se do banho, chupou uma laranja. Esperou crítica os policias que não vieram. Jogou sinuca com os anjos. Gritou de dor. Pediu dinheiro, atravessou o sinal. Retorceu-se, blasfemou. Lutou com a impaciência, embriagou-se barato. Almejou não se sabe o quê, quis. Esperou crítica os policiais que não vieram. Dirigiu-se ao altar e tirou a roupa. Pariu-se a si mesma, numa relação convulsa e mimética consigo própria. Auto-referenciada, descansou lúgubre, fletida no genuflexório. Ao longe, no altar, um diamante colossal vertia lágrimas. Inundou-se, encheu-se. Seu filho petrificado era maior do que a pedra que lhe enchia o peito. postado por: IGOR DIAS 8:57 PM Comments:Excessivo? Fraco? Como todos os outros, andava pela rua numa quinta-feira à tarde, deixando à mostra apenas as meias cinzas. Porque, para ele, as meias eram não apenas meias cinzas, mas símbolo de tudo que ele talvez expressasse um dia, as meias cinzas. Eram elas que apareciam por cima dos all stars deliciosamente sujos e das calças igualmente rasgadas, nesse clima modeladamente junkie. Mas as meias cinzas, finíssimas, de tecido italiano, eram a essência do que se recusava em mostrar. Era o aspecto formal da roupa, uma meia social insuportavelmente cinza e em contraste total com o clima indie que trajava. Porque se usava um cabelo em estilo moicano, três piercings no nariz, e uma camisa com imagens e dizeres incompreensíveis, nada ainda poderia se afirmar sobre ele. E mesmo que se soubesse que ele ouvia as músicas que fazem sucesso no meio underground, que se interessava pelos filmes que eram vistos pelas pessoas que ouviam aquelas músicas, ainda assim, as meias cinzas apareciam ainda como um símbolo enigmático, uma incógnita difícil de ser descoberta. Porque os outros não sabiam que por trás do rebelde rocker, ostensivamente revolucionário, a prova cabal da sua condição de ser indie não era ser igual entre os diferentes, mas ser ainda diferente, mesmo entre os diferentes. As meias eram a pista inconsciente de que após toda quinta-feira à tarde, viria a sexta-feira de manhã, na qual ele acordaria cedo, leria o jornal e acompanharia, com fervor e em segredo, a evolução das ações da bolsa de valores. Mas quem haveria de saber? postado por: IGOR DIAS 7:25 PM Comments:Sábado, Maio 12, 2007 Porque era possível ouvir só os passos do lado de fora, não dava pra saber se era magra, baixa, manca. Mas era mulher, acima de tudo a certeza de ser mulher, talvez os passos agudos, a certeza de que são pés que andam em saltos não muito finos. Sim, era alta, só uma mulher alta poderia ter passos tão precisos, um andar altivo e elegante, rítmico, harmônico sem cansar, os passos de chuva como nuvens reféns do anúncio.. Era alta, era muito alta e era magra, o corpo esguio sobre o sapato vermelho na passarela imaginária do lado de fora, intermitentemente rítmico como um instrumento de percussão, a levada do pandeiro num samba agradável de um churrasco de domingo com cerveja, piscina e a carne dura, a carne dura da levada porque era jovem, era uma ninfeta mulata de pernas torneadas que cresciam até as coxas volumosas que se escondiam sem vergonha por trás do vestido vermelho fino; a cintura monumental porque ela era um contrabaixo, a boca vermelha como tudo, como o som vermelho dos sapatos rítmicos, o ritmo, o ritmo, o ritmo sem perder o ritmo e ela toda sangue, a nuca à mostra sob os cabelos presos em coque, toda sangue. Subia o instinto do vampiro, da fantasia sexual do vampiro e do pescoço delicioso que se escondia atrás do rosto que se moldava numa forma de maçã com os olhos escuros doces. E eu a desejava, a desejava toda sangue e toda ritmo, porque ela era o arquétipo da puta doce, da mulher que se desfaz ao toque, que se desmancha como um torrão de açúcar; doce até o insuportável do prazer, até que o vampiro esteja saciado de sangue e de sexo. Mas eram só os passos e eu daria a vida pelo suingue do rebolado da mulata do lado de fora e eu era uma máquina de sexo em potência, ereto, excitado aos passos dos pés sobre o salto vermelho que viriam para mim, os cabelos escuros se espalhando na minha cara como uma medusa do Pacífico, todo potência e ela toda heartbeat, insuportavelmente medusa no heartbeat do sapato, toda sangue, toda ritmo, toda flácida, toda manca, toda baixa, porque tudo isso foi em frações de segundo e a porta se abriu e era um monstro de sapatos negros com saltos, a mulher no limite da feiúra, gorda, toda insuportável vestida de negro num vestido cheio de panos extras, toda insuportavelmente pálida, toda ausência de sangue parecendo um bolo fúnebre, um cadáver sem fome que me oferecia um copo d¿água com simpatia, no baque triste da frustração do refestelar-se. postado por: IGOR DIAS 1:36 PM Comments:Terça-feira, Maio 08, 2007 Porque não éramos nada nós ali. Apenas existindo como jovens despreocupados, nós três, a ouvir música e conversar sobre qualquer coisa, como se nada importasse, como se não existissem vidas além do 403. Nós éramos só nós em nosso clubinho fechado de risos e cachaças, como personagens de Cortázar, absolutamente livres naquele minúsculo apartamento no Catete. Estávamos fazendo a nossa história e buscando a magia que desaparece na fumaça dos carros do mundo vil e hipócrita. Mas a magia, ah a magia, veio sobretudo em fumaça, porque nunca houve nada mais belo do que a favela enevoada pela fumaça do cigarro que contemplava o silêncio depois do sexo da janela sob o sol. postado por: IGOR DIAS 12:29 AM Comments:Domingo, Abril 15, 2007 Olhava pela janela do ônibus, sob o sol escaldante embora outono, sem esperar por qualquer coisa que fugisse ao hábito. As mesmas paisagens, os mesmos sinais de trânsito fechados, o mesmo calor de todos os outonos cariocas. Mas num dos sinais fechados, eu pude ver o que nuca vira. Um senhor de aproximadamente setenta anos, calças sociais brancas e uma camisa amarela; a barba por fazer e um olhar docemente aristocrático e alheio. Estava num posto de gasolina a contemplar o mundo em silêncio, como quem o fita talvez por última vez (ah, como seria bom ler-lhe os pensamentos). O senhor postava-se como quem acaba de dar a primeira tacada num jogo de golfe: mantinha as duas pernas juntas e esticadas, embora inclinadas em relação ao solo; apoiava-se sobre uma bengala de madeira clara e lustrosa. Parecia ser daqueles que em vez de ler histórias aos netos, ensinava-os desde já a tocar os negócios da família. Embora não atingissem a realidade que toca os olhos, era fácil vislumbrar-lhe um chapéu bege panamá e um cachimbo fumegante. E junto com a fumaça do cachimbo, veio a lamúria; o curso de desenho não feito aos nove anos. A vida tomou outros rumos e eu nunca senti falta, escolhi o videogame e, depois, a capoeira. Houve também um tempo em que tentei alguma coisa com a escrita, mas é sempre aquela frustração das letras que nunca se bastam... O pior é que ainda escrevo meus desenhos frustrados, ainda carrego o ranço das palavras que não bastam para descrever a imagem, para descrever a falta que me fez um jogo de aquarela, porque o velho, insuportavelmente estático, era uma obra de arte que se perdia para sempre na fragilidade ameaçadora do caos urbano. postado por: IGOR DIAS 11:42 AM Comments:Quinta-feira, Março 29, 2007 E não há nuvem que me anuvie, porque eu tenho os olhos de lince. E não há beco que eu não conheça, porque eu me esgueiro invisível e sempre. E não há cruz que me pese, porque eu sei o valor de cada grama do que carrego. E não há traje que não me sirva, porque eu sou múltiplo, vários, todos. E não há gripe que me adoeça, porque eu sou forte. E não há corda que eu não harpeje porque ainda é preciso saber ser doce. E não há dinheiro que me compre, porque minhas idéias não estão à venda. E não há mula que eu não cavalgue, porque eu pego é pelo cabresto. E não há truque que eu não descubra, porque eu sou esperto, você vai ver. E não há fogo que vire cinza, porque eu sou quente, ardente, febril. E não há fera que me domine, porque eu, ainda fera, tão fera, recuso feroz. E por mais que haja coisas que eu não seja, não há nada que eu não possa. postado por: IGOR DIAS 9:34 PM Comments:Domingo, Fevereiro 11, 2007 Ainda deu-se um tempo para reflexão, como merecem todas as ações cometidas pela força do mal, pelo desejo da crueldade pura e simples, mas nada havia mais para se refletir pois o que se via ali era apenas o resquício da ação sem volta, as luvas não mentiam, ensangüentadas até o fim do dorso. As luvas agora quase laranjas, mestiças do amarelo forte e do sangue sujo, jaziam indubitáves no chão da sala como garfo e faca ao fim da refeição, num ângulo absolutamente fotográfico. Restava ainda assim o desejo de refletir sobre o fato, refletir sobre as conseqüências mais do que sobre as causas, iludir-se do que talvez poderia ter sido, pegar ainda o corpo e esconder de forma a tornar impossível a descoberta, forjar esconderijos secretos, utilizar os espaços cófreos dos armários, os fundos falsos, a baixela sob a pia e ainda, cada parte num local, os braços pendurados nos lustres como bibelôs, as pernas trancadas nas gavetas do quarto de hóspedes e, por fim, a cabeça na geladeira, embaixo das cebolas a apodrecer como cebola, até que não passasse de uma cebola podre como as outras. Esconder o corpo Queimar o corpo Vender o corpo Livrar-se do corpo Livrar-se do corpo Livrar-se do corpo Deixaria tudo escrito numa carta, as instruções do fim, o destino da carne liberta. As luvas estavam sujas de sangue de ratos, todos os dias às 16:00h. Porque suicidar os ratos lhe dava ainda a oportunidade de refletir sobre, um preâmbulo do assassínio de si. postado por: IGOR DIAS 5:19 PM Comments:Sábado, Janeiro 13, 2007 Pior do que perder a hora É encontrá-la E não reconhecê-la postado por: IGOR DIAS 1:45 PM Comments:Quinta-feira, Dezembro 14, 2006 teste postado por: IGOR DIAS 2:36 PM Comments:
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